Opinião

Dos Açores faz-se Europa

Foi no concelho mais ocidental da União Europeia, na ilha das Flores, que terminei esta semana de trabalho. E há algo de particularmente simbólico nisso. Porque é precisamente nesse território, tantas vezes visto apenas pela sua distância, que se percebe melhor o que a Europa representa quando decide bem e o que arrisca perder quando decide mal.

A visita da representante da Comissão Europeia em Portugal às Flores e ao Corvo, a meu convite, permitiu voltar a demonstrar uma realidade fundamental: os fundos europeus não são uma abstração técnica nem uma conversa de gabinete. Têm impacto concreto na vida das pessoas. Vê-se isso na reconstrução do Porto das Lajes das Flores, apoiada pelo Fundo de Solidariedade e outros fundos europeus. Vê-se nos investimentos em habitação, em ambiente, em infraestruturas e em incubação empresarial. Vê-se, no fundo, na capacidade de territórios pequenos e afastados projetarem futuro.

A este título, a semana trouxe também outras notícias politicamente importantes. O Parlamento Europeu aprovou a sua posição para o próximo orçamento da União e essa posição corrige, em pontos essenciais, a proposta inicial da Comissão Europeia. Corrige-a porque reforça o orçamento global em cerca de 10%, reconhecendo uma evidência simples: não se pode exigir mais à Europa com menos meios. Corrige-a também porque incorpora propostas defendidas e negociadas ativamente pelos eurodeputados socialistas portugueses, que tiveram um papel relevante neste processo e ajudaram a fixar prioridades claras para o próximo quadro financeiro.

O resultado está à vista. Mais 60% para o POSEI, mais de 260% para as pescas e aquacultura, uma política de coesão robusta e um Fundo Social Europeu forte. Não é o fim da batalha, porque agora seguem-se negociações com os Estados-Membros. Mas é um passo decisivo e uma base negocial muito mais séria para defender os Açores, os agricultores, os pescadores e as regiões que não podem continuar a ser tratadas como nota de rodapé.

Esta foi também uma semana marcada pelo contacto com a juventude. Nas Flores, no Corvo e ainda em Bruxelas, tive oportunidade de estar com jovens de várias das nossas ilhas. E esse trabalho não pode ser episódico. Tem de ser continuado, persistente e levado a sério. Num clima geopolítico como o que vivemos, é muito fácil os mais novos desanimarem, desligarem-se e concluírem que nada do que fazem conta.

Ora, nós precisamos exatamente do contrário. Precisamos que se sintam ouvidos, respeitados e chamados a participar. A democracia não se renova sozinha. E a Europa também não.

Dos Açores faz-se Europa. E é também daqui que a Europa tem de ser pensada, construída e defendida.